No último dia 28 de setembro, o Jornal Nacional abriu espaço para que os apresentadores, William Bonner e Fátima Bernardes, comentassem a vitória do telejornal do Emmy Internacional, ocorrido dois dias antes, em Nova York. Uma coisa não se pode negar: foram momentos de muita emoção, pelo menos para os mediadores, que noticiaram o prêmio num tom de bate-papo comemorativo.
“Eu só fui entender quando fui tirar a foto como vitorioso depois. Eu me lembro dos gritos”, confessou Bonner, sob a atenção dos olhos orgulhosos da esposa-colega, ao relatar sua surpresa em receber o envelope da mão do presidente da Academy of Television Arts & Sciences, John Shaffner. Durante os 4 minutos e 17 segundos que duraram a “notícia”, foram exibidas imagens da premiação, acompanhadas pelos comentários entusiasmados dos âncoras.
“É bom que todo mundo entenda: o Emmy é o Oscar da televisão e é um grande prêmio americano, quer dizer, os grandes “cobras” da televisão americana estão sempre sendo premiados pelo Emmy”, Bonner esclarece para os seus espectadores a importância do acontecido, e Fátima assina embaixo: “Ficou lindo o agradecimento, com todo mundo no palco. Embora a gente já tenha chegado a essa festa sete vezes, é muito impactante ver toda a presença dos grandes nomes do jornalismo americano nessa festa”.
Diante da febre do infotainment, das mudanças nos paradigmas jornalísticos e da desilusão quanto à objetividade, o que mais assusta não é o tom casual com que o casal-JN fala sobre o Emmy. Tendo em vista os valores jornalísticos, que apontam o interesse público como princípio legitimador da atividade profissional, e a credibilidade assumida pelo Jornal Nacional, que ocupa posição de principal telejornal brasileiro, a questão aqui é entender o critério de noticiabilidade que justifica a transmissão demasiado alongada do triunfo do telejornal.
O fato de que o JN tem em sua linha editorial uma dinâmica de equilibrar notícias boas e notícias ruins é conhecido por todos, evidenciado tanto nas entrevistas concedidas pelos apresentadores, quanto nos materiais didáticos oriundos da experiência jornalística global, a exemplo documentário Um Dia no Jornal Nacional, que mostra a rotina diária de seleção, edição e apresentação dos principais acontecimentos no país e no mundo, ou no livro Jornal Nacional – Modo de Fazer, onde Bonner discorre sobre os segredos de fazer o melhor telejornalismo do país, num formato de manual voltado para estudantes de jornalismo. Sabemos, entretanto, que 4min17 representa quase 12% dos 35 minutos, que é a duração média das edições diárias do JN, e a pergunta que fica é: quantas informações importantes não foram dadas em detrimento da autopromoção.
Partindo do pressuposto de que os programas jornalísticos contemporâneos ainda buscam suas bases de legitimidade, nos moldes dos estudos do Jornalismo, trazemos aqui o critério de proximidade, proposto por Mauro Wolf, autor muito usado nos cursos de comunicação, para analisar a hierarquização das notícias do JN. Proximidade porque vamos falar de um caso que ocorreu aqui na Bahia, em agosto deste ano. Trata-se do acidente ocorrido na obra de uma grande construtora, onde nove operários morreram após a queda de um elevador mal-conservado. Nove famílias perderam seus pais por uma displicência comprovada por todos os órgãos de fiscalização urbana, e o Jornal Nacional sequer exibiu uma matéria produzida pela afiliada da rede Globo no estado, a rede Bahia. Quinze segundos de nota em um dos blocos do telejornal foi o suficiente para retratar a realidade de tal tragédia. O que nos faz observar uma sutil ironia na categoria em que o JN foi vencedor: notícia.
Basta rever a edição do dia 28 de setembro, para notar a discrepância entre a duração da notícia sobre o Emmy das demais matérias, mesmo aquelas das cidades do Sul-Sudeste, que são mais recorrentes no telejornal. A matéria sobre a prisão do comandante da Polícia Militar, acusado de matar uma juíza no Rio de Janeiro, por exemplo, teve 1min54. Na notícia sobre o jogo entre Brasil e Argentina, na Copa das Américas, o bate-papo entre William Bonner e Galvão Bueno durou 1min20, com direito a congratulações entre os colegas alusivas ao prêmio, sem contar com as notícias sobre a Bolsa, a Usina de Belo Monte, o arquivamento do caso do deputado Valdemar Costa Neto, o papel do Conselho Nacional de Justiça e o fim da greve de professores da rede estadual de Minas Gerais, que não tiveram nem um minuto de duração.
Diariamente, milhares de acontecimentos nordestinos, nortistas, sertanejos, ribeirinhos e periféricos gritam por um espaço na janela de maior visibilidade da televisão brasileira, enquanto os profissionais, celebridades ou não, tentam negociar tamanha demanda com os interesses empresariais, institucionais, políticos, geográficos e estratégicos da emissora.
**Crítica produzida para o site do Grupo de Pesquisa de Análise em Telejornalismo, publicada em 28/10/2011. Acessar a publicação original em: http://telejornalismo.org/?p=1272
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