Anteontem, enquanto estava
abrigada na casa do meu vizinho porque cortaram a luz daqui de casa (graças a
desorganização e displicência do proprietário do apartamento), assisti uma
parte de uma palestra de Eugênio Bucci – jornalista e professor da USP – sobre a
comunicação pública no Brasil. Não sei bem se a palestra era toda voltada para
este tema, mas pelo menos durante os quarenta minutos que assisti (creio que
não perdi muita coisa anterior), a discussão girou em torno deste eixo.
Apesar das perguntas, muitas
vezes carregadas de prolixidade – aquela velha história de os jornalistas (ou
estudantes de jornalismo, ou não; não sei bem quem era o público que estava
assistindo) responderem as próprias perguntas no intuito de mostrarem-se
sabidos – e das respostas do palestrante, muitas vezes alongadas por demais
também, o programa foi bem interessante e é um bom exemplo ilustrativo para o
nome deste blog: A TV tem Salvação.
Eu teria uma série de problemas
para apontar no programa, que na verdade foi uma transmissão da palestra, ou
seja, não houve uma produção específica para a exibição na televisão, mas uma
mera filmagem do evento. O que implicou em um formato monótono, mal trabalhado
que, certamente, atraiu a atenção de uma mínima parcela da minoria da população
que assiste à TV Senado. Em termos de alcance, portanto, creio que foi um
fiasco. Mas eu vi. Acredito que outros gatos pingados também. E isso é de suma
importância para fomentar o debate público sobre a comunicação pública no
Brasil.
Dentre os pontos abordados, o que
mais gerou debate foi a cota absurda de gastos públicos em propaganda de
governos federais, estaduais e municipais. Bucci, que foi presidente da
Radiobrás de 2003 a 2007, falou dos milhões que são gastos, anualmente, pelos
governos com autopromoção. Embora tenha problematizado e deixado claro a sua
posição de insatisfação diante deste dado, o professor afirmou que é muito
difícil reverter esta situação, a qual ele classificou como um “ecossistema” de
interesses interligados. Serei mais clara: O ideal é que este dinheiro
utilizado para propagandas – tão criativas e sensacionalistas quanto caras –
sobre os grandes feitos dos governos, fosse revertido para a população, através
de investimento em Saúde, Educação e outros serviços públicos. No entanto,
nenhum partido (para não falar em nenhum político) apoiaria esta mudança, pois
se isso ocorresse, nenhum governo teria “voz” para falar de si próprio nos
meios de comunicação; e o julgamento dos seus feitos ficariam, exclusivamente,
por conta da mídia. Os meios de comunicação, do outro lado, também não
apoiariam esta medida, por questões de sobrevivência. As propagandas
governamentais são responsáveis por boa parte das cotas das televisões, rádios
e jornais brasileiros e, sem este dinheiro (mais a ausência de incentivo
público fora desta negociação), a mídia quebraria.
O que fazer então, se este
sistema já está tão autossuficiente que é quase impossível mudar seu rumo?
Acredito que, ao menos, estabelecer um valor máximo para ser utilizado com
propagandas e, além disso, abrir espaços para a discussão do que foi
feito e do que ainda há para fazer durante os mandatos. Afinal, uma campanha publicitária é uma
via de mão única; os partidos de condição contratam multinacionais para contar belas histórias e interpelar a população com os dados positivos de cada
governo. Entretanto não se vê nenhum tipo de projeto da comunicação pública em
abrir o debate com a população sobre os problemas que estão sendo enfrentados
pelos governos, ou sobre os projetos que estão para entrar em vigor. Se não
vivemos em uma política plebiscitária, que seria o ideal, que os governantes ao menos se utilizem das novas tecnologias
e dos próprios meios de comunicação, para ouvir um pouco a população, ou ao
menos a parcela do povo que esteja interessada em participar. Sim, esta parcela
existe.
Outra polêmica em pauta foi a
divisão do tempo da televisão – em época de eleição – para os partidos
políticos. Em cada eleição, a cota de tempo para cada partido é proporcional à
quantidade de parlamentares que cada partido tem nas repartições públicas. A
pergunta da figura (não lembro o nome da moça), muito pertinente inclusive,
era se esta regra não ia contra a democracia, além de aumentar a desigualdade
entre os partidos; afinal, quem já está no poder vai ter sempre mais espaço do
que os partidos que estão disputando. Bucci respondeu que no segundo turno já
funciona assim (independente do tamanho dos partidos, os candidatos que forem
para o segundo turno terão direito a um mesmo tempo nos veículos para
publicizar seus projetos), mas que para que isso vá para o primeiro turno, os
partidos é que devem se consolidar para reivindicar este direito. Segundo o
professor, o Brasil está entupido de micropartidos que, ao nosso ver (meu e dele), só servem
para dispersar ainda mais a democracia no país, pois a maioria não possui um ideário,
uma coesão política, tampouco, um projeto decentemente articulado para o país.
Senti falta de uma discussão mais
apurada sobre a qualidade da TV Pública no Brasil, que na verdade não é
pública, mas Estatal. Só que, mesmo estatais, poderiam investir mais na
qualidade e diversidade de seus programas, para que representassem reais
alternativas de lazer e informação em contrapartida às emissoras privadas, que trabalham em prol do capitalismo. No
entanto, como citei no texto de Boas-vindas, na primeira postagem deste blog,
esta palestra representou, exatamente, o que eu quis dizer sobre “o capitalismo
oferecer seus próprios mecanismos de supressão”.
Em síntese, a palestra foi
exibida pela TV Senado e, no entanto, pôs em causa uma série de atitudes
governamentais, abrindo o espaço para a crítica, dentro da própria casa-grande.
Quem se deu ao trabalho de assistir a transmissão, mesmo sem nenhum atrativo
estético, com certeza aprendeu muita coisa sobre o funcionamento da comunicação
pública e ganhou uma munição a mais para, de repente, iniciar um debate sobre o
assunto, seja no facebook, na sala de aula, no escritório ou na hora do jantar
com a família. E é disso que falo quando digo que a TV tem Salvação, e tem que
ter mesmo! Bucci declarou um dado, que muita gente desconhecia, durante a
palestra: durante o período de campanhas eleitorais, a grande corrida dos
partidos é na busca de tempo na televisão. Não no rádio, nem na internet, nem
nos meios impressos. Mas na televisão. Por que será? Porque é o meio que
alcança a maioria do eleitorado.
Pois se as lebres da nossa
democracia representativa lutam por um espaço na televisão, nós, verdadeiros
interessados na democracia real, não podemos deixá-la de mão.
Bruna Rocha
