domingo, 29 de julho de 2012

Eugênio Bucci na TV Senado


Anteontem, enquanto estava abrigada na casa do meu vizinho porque cortaram a luz daqui de casa (graças a desorganização e displicência do proprietário do apartamento), assisti uma parte de uma palestra de Eugênio Bucci – jornalista e professor da USP – sobre a comunicação pública no Brasil. Não sei bem se a palestra era toda voltada para este tema, mas pelo menos durante os quarenta minutos que assisti (creio que não perdi muita coisa anterior), a discussão girou em torno deste eixo.

Apesar das perguntas, muitas vezes carregadas de prolixidade – aquela velha história de os jornalistas (ou estudantes de jornalismo, ou não; não sei bem quem era o público que estava assistindo) responderem as próprias perguntas no intuito de mostrarem-se sabidos – e das respostas do palestrante, muitas vezes alongadas por demais também, o programa foi bem interessante e é um bom exemplo ilustrativo para o nome deste blog: A TV tem Salvação.

Eu teria uma série de problemas para apontar no programa, que na verdade foi uma transmissão da palestra, ou seja, não houve uma produção específica para a exibição na televisão, mas uma mera filmagem do evento. O que implicou em um formato monótono, mal trabalhado que, certamente, atraiu a atenção de uma mínima parcela da minoria da população que assiste à TV Senado. Em termos de alcance, portanto, creio que foi um fiasco. Mas eu vi. Acredito que outros gatos pingados também. E isso é de suma importância para fomentar o debate público sobre a comunicação pública no Brasil.

Dentre os pontos abordados, o que mais gerou debate foi a cota absurda de gastos públicos em propaganda de governos federais, estaduais e municipais. Bucci, que foi presidente da Radiobrás de 2003 a 2007, falou dos milhões que são gastos, anualmente, pelos governos com autopromoção. Embora tenha problematizado e deixado claro a sua posição de insatisfação diante deste dado, o professor afirmou que é muito difícil reverter esta situação, a qual ele classificou como um “ecossistema” de interesses interligados. Serei mais clara: O ideal é que este dinheiro utilizado para propagandas – tão criativas e sensacionalistas  quanto caras – sobre os grandes feitos dos governos, fosse revertido para a população, através de investimento em Saúde, Educação e outros serviços públicos. No entanto, nenhum partido (para não falar em nenhum político) apoiaria esta mudança, pois se isso ocorresse, nenhum governo teria “voz” para falar de si próprio nos meios de comunicação; e o julgamento dos seus feitos ficariam, exclusivamente, por conta da mídia. Os meios de comunicação, do outro lado, também não apoiariam esta medida, por questões de sobrevivência. As propagandas governamentais são responsáveis por boa parte das cotas das televisões, rádios e jornais brasileiros e, sem este dinheiro (mais a ausência de incentivo público fora desta negociação), a mídia quebraria.

O que fazer então, se este sistema já está tão autossuficiente que é quase impossível mudar seu rumo? Acredito que, ao menos, estabelecer um valor máximo para ser utilizado com propagandas e, além disso, abrir espaços para a discussão do que foi feito e do que ainda há para fazer durante os mandatos. Afinal, uma campanha publicitária é uma via de mão única; os partidos de condição contratam multinacionais para contar belas histórias e interpelar a população com os dados positivos de cada governo. Entretanto não se vê nenhum tipo de projeto da comunicação pública em abrir o debate com a população sobre os problemas que estão sendo enfrentados pelos governos, ou sobre os projetos que estão para entrar em vigor. Se não vivemos em uma política plebiscitária, que seria o ideal, que os governantes ao menos  se utilizem das novas tecnologias e dos próprios meios de comunicação, para ouvir um pouco a população, ou ao menos a parcela do povo que esteja interessada em participar. Sim, esta parcela existe.

Outra polêmica em pauta foi a divisão do tempo da televisão – em época de eleição – para os partidos políticos. Em cada eleição, a cota de tempo para cada partido é proporcional à quantidade de parlamentares que cada partido tem nas repartições públicas. A pergunta da figura (não lembro o nome da moça), muito pertinente inclusive, era se esta regra não ia contra a democracia, além de aumentar a desigualdade entre os partidos; afinal, quem já está no poder vai ter sempre mais espaço do que os partidos que estão disputando. Bucci respondeu que no segundo turno já funciona assim (independente do tamanho dos partidos, os candidatos que forem para o segundo turno terão direito a um mesmo tempo nos veículos para publicizar seus projetos), mas que para que isso vá para o primeiro turno, os partidos é que devem se consolidar para reivindicar este direito. Segundo o professor, o Brasil está entupido de micropartidos que, ao nosso ver (meu e dele), só servem para dispersar ainda mais a democracia no país, pois a maioria não possui um ideário, uma coesão política, tampouco, um projeto decentemente articulado para o país.

Senti falta de uma discussão mais apurada sobre a qualidade da TV Pública no Brasil, que na verdade não é pública, mas Estatal. Só que, mesmo estatais, poderiam investir mais na qualidade e diversidade de seus programas, para que representassem reais alternativas de lazer e informação em contrapartida às emissoras privadas, que trabalham em prol do capitalismo. No entanto, como citei no texto de Boas-vindas, na primeira postagem deste blog, esta palestra representou, exatamente, o que eu quis dizer sobre “o capitalismo oferecer seus próprios mecanismos de supressão”.

Em síntese, a palestra foi exibida pela TV Senado e, no entanto, pôs em causa uma série de atitudes governamentais, abrindo o espaço para a crítica, dentro da própria casa-grande. Quem se deu ao trabalho de assistir a transmissão, mesmo sem nenhum atrativo estético, com certeza aprendeu muita coisa sobre o funcionamento da comunicação pública e ganhou uma munição a mais para, de repente, iniciar um debate sobre o assunto, seja no facebook, na sala de aula, no escritório ou na hora do jantar com a família. E é disso que falo quando digo que a TV tem Salvação, e tem que ter mesmo! Bucci declarou um dado, que muita gente desconhecia, durante a palestra: durante o período de campanhas eleitorais, a grande corrida dos partidos é na busca de tempo na televisão. Não no rádio, nem na internet, nem nos meios impressos. Mas na televisão. Por que será? Porque é o meio que alcança a maioria do eleitorado.

Pois se as lebres da nossa democracia representativa lutam por um espaço na televisão, nós, verdadeiros interessados na democracia real, não podemos deixá-la de mão.


Bruna Rocha

terça-feira, 24 de julho de 2012

Tá custando o quê?

Vampeta no quadro da verdade do CQC de hoje: impagável. Aquilo que é sinceridade de bar. Hilário!

Fui no site do programa para lembrar o nome correto do quadro, não achei o nome, mas achei muita poluição visual. Na televisão eles são tão criativos na inclusão da publicidade e no site está uma bagunça geral. Chega fiquei com dor de cabeça.

Não assisti o programa inteiro... Peguei a matéria de Mônica com os candidatos de São Paulo [QUERO VER SE NÃO VÃO VIR EM SALVADOR] e nada muito novo. Serra sempre fazendo aquela velha média com seus jovens eleitores, através da paquera com a repórter.. aquela mesma coisa. Nada muito constrangedor como gostamos.

Vi também o Proteste Já. Muito legítimo! Muito aterrorizante a situação do hospital de Paulínia (oh não, SP de novo). E o pior é que o caos na saúde é geral. Embora seja muito pior na rede Pública - claro - a rede privada está cada vez mais digna de suas origens etimológicas: uma merda! Planos de Saúde metendo nos pacientes e nos médicos e saindo de porretas cheios da grana. Hospitais sobrecarregados, atendimentos superficiais. Virose! Virose! Virose! E o Estado não faz NADA!

Digo a partir de minha própria experiência; estive internada recentemente no hospital Salvador (particular) e vi até muita vontade de trabalhar na maioria dos funcionários [para quem não recebia o salário há tempos] e péssimas condições de trabalho e atendimento. E o Salvador é só um exemplo. E foi o exemplo que me salvou de uma pneumonia, com toda ressalva. Se dependesse da CardioPulmonar eu teria morrido tossindo, porque, como a recepcionista me disse: "Aquele idoso está com febre, pressão alta e tá esperando. Você também precisa esperar". Coitado do senhor.

Agora, falando da estética do quadro; alguma coisa me incomodou e me causou um estranhamento. Os temas musicais de terror e o excesso de efeitos especiais, para além da artificialidade de alguns dos denunciantes [isso não é culpa da produção mas um problema de algumas pessoas em lidar com a câmera], causaram-me uma sinestesia um tanto quanto desagradável, digna do que chamamos de sensacionalismo - ou seja, modo de comunicação pautado na lógica das sensações (menos que no cognitivo). Também achei a abordagem de Oscar Filho ao secretário de saúde do município muito permissiva. Rafinha era mais eficiente nesse aspecto, tenho que admitir.

Vejo que o programa tá mudando. Não sei se isso é bom ou ruim, mas é um bom problema de pesquisa.

Há quem me pergunte porque eu comecei falando de Vampeta para depois falar de coisas tão mais relevantes. Usei a lógica da pirâmide invertida, no sentido da identidade do programa. Porque, para mim, foi a parte mais CQC da edição de hoje! Antropofágica, como deveria ser. Vampeta, rs.



**Texto publicado no Facebook no dia 24 de julho de 2012

Não, não é Fantástico!

Que decepção heim, Fantástico? Várias chamadas alarmantes desta bendita entrevista com Rosane Collor - como se a matéria fosse revelar informações inéditas referentes ao presidente mais corrupto da República Brasileira - para esse resultado raso e dispensável?

A reportagem em si foi muito mais uma retrospectiva de fatos já públicos e mais do que conhecidos pelo povo brasileiro, do que uma entrevista reveladora.

Rosane, sem a mínima eloquência, coerência e segurança, não falou nada com nada.

"Collor foi meu grande amor e minha grande decepção"
"Não sabia o que era separação total de bens"
"Acho que 18 mil de pensão é pouco, tem amigas que ganham muito mais"
"Não acredito em coincidência, mas em Jesuscidência"

JESUSCIDÊNCIA foi fogo, heim?

Mas quando o prumo da prosa ia para o lado de PC Faria, dos desvios públicos, ela não sabia o que responder. Respondia e depois voltava atrás na resposta, sem dar muita certeza. Citar os rituais religiosos e especulações sobre magia negra também não enriqueceram muito o conteúdo da reportagem. Lamentável, padrão Globo de qualidade.



Renata Ceribelli, sem nenhum gás investigativo nem criatividade, foi passiva em todas as respostas da entrevistada. E nos momentos em que mais debateu, ou cavou um pouco mais, diziam respeito a aspectos fúteis do assunto, como a história dos rituais religiosos do corrupto.

A única coisa que essa entrevista revelou é que só uma mulher desprovida de discernimento como ela poderia se envolver com um cara como ele.

Em pensar que ela foi presidente da Legião Brasileira de Assistência, senhor. Ai, senhor.



**Texto publicado no Facebook no dia 15 de julho de 2012

Na Moral, Bial!

Ontem (12 de julho de 2012) parei para assistir um pouco do programa do Bial... bom, achei o formato inovador, dentro das minhas referências... embora toda a espontaneidade pareça meio fake pelo fato de ser gravado.. quanto á edição de ontem, achei bacana a abordagem sobre privacidade, apesar de faltar um aprofundamento maior quanto à midiatização da vida pessoal, da questão capitalista da liberdade individual em detrimento do coletivo, e das próprias redes sociais, que acentuaram ainda mais essa "holofotização" do privado.

Gosto da Dira Paes, mas achei a participação dela um tanto ínfima no discurso;

O publicitário foi corajoso ao afirmar que a Globo é a principal cliente dos paparazzi, com seus diversos produtos que se alimentam da vida dos famosos;

Bial está tendo a oportunidade de afirmar nas entrelinhas de seu script o quanto é esclarecido e o quanto pode ir além da espiadinha [no programa ele chegou a falar de formação e deformação profissiona]; Achei também que ele disputou muito a atenção com os convidados, o que não é uma práxis positiva em entrevistas;

Pedro Cardoso foi o mais eloquente e coerente em seus posicionamentos... mostrou mais uma vez que representa um elemento de discordância dentro da hegemonia global. Foi o único a pontuar que o problema vai muito além dos paparazzi; que o problema está na própria lógica capitalista que demanda a existência dessa profissão e a proliferação de empresas que contratam esses profissionais;

Faltou falar da falta de políticas públicas de incentivo ao conhecimento; à leitura; da falta de alternativas na TV Aberta; falta de qualidade na educação e, consequentemente, de esclarecimento da população - para que se interesse por algo mais contundente do que a vida do outro.



** Texto publicado no Facebook no dia 13 de julho de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

CQC e Pânico: Primos distantes agora dividem a mesma casa


Dois grandes programas de humor da televisão brasileira, classificados como oponentes pela mídia e telespectadores, agora dividem espaço na mesma emissora. A rede Bandeirantes, que já vinha pleiteando o passe da equipe do Pânico há algum tempo, anunciou, no dia 17 de fevereiro, a assinatura do contrato com o programa, que estreia em março na nova casa. Talvez seja um primeiro passo para que, definitivamente, cessem as comparações e burburinhos de concorrência entre o CQC e o Pânico, agora, colegas de emissora. Ou talvez, a emissora pretenda apimentar mais ainda essa briga de primos, que tanto deu o que falar desde o lançamento da versão brasileira do Custe o Que Custar, originalmente, Caiga Quien Caiga, da produtora argentina Cuatro Cabezas. Primos bem distantes, diga-se de passagem. Afinal, não existe nenhum argumento coerente para ter-se construído tanta picuinha em torno dos dois programas, primeiro, porque produzem um estilo completamente diferente de humor: enquanto o Pânico trabalha com o nosense, pautado no mundo das celebridades, o CQC tem uma proposta de fazer humor com formato jornalístico, pautado, principalmente, em assuntos políticos. Inúmeras diferenças gritantes podem ser apresentadas aqui, desde o formato dos programas até a postura e trajetória dos mediadores.
O Pânico nasceu no rádio, o CQC é originariamente, pensado para a televisão. O Pânico se propõe a fazer as pessoas se matarem de rir, enquanto o CQC, além disso, disputa uma posição de interferência na esfera pública. Como essa “falsa” concorrência surgiu no imaginário nacional não se sabe, mas ficou claro que quem estava vendo toda essa confusão de fora notou que ela até podia dar ibope. Uma pista da coerência desta hipótese foi a recepção dos apresentadores do CQC, Marcelo Tas, Oscar Filho e Marco Luque, aos novos colegas do Pânico na TV. No último dia 12, os principais apresentadores dos dois programas, Tas e Emílio Surita, tiveram a chance de transbordar suas vaidades, ao vivo, em uma troca de faíscas digna de muitos pontos de audiência. Tas começa o duelo com sua gentileza ácida: “Se precisarem de alguma dica, podem falar… afinal, vocês estão vindo para uma emissora maior, a gente tem um humor mais sofisticado”. Emílio rebate, sugerindo que o “concorrente” é “sem graça”, e Tas replica falando que “engraçado mesmo deve ser mostrar mulher pelada” e ainda insinua que o oponente não tem liberdade de expressão, tendo que “pedir autorização” para mostrar certas imagens. Depois das farpas, a integrante Sabrina Sato foi enviada pela equipe do Pânico como um presente para selar a paz com o CQC, que tentou retribuir a gentileza, enviando a repórter Mônica Iozzi para a equipe do Pânico, mas teve o presente recusado.
A probabilidade de que este intercâmbio aconteça periodicamente não é pequena, afinal, dois concorrentes enchendo um mesmo cofre é tudo que qualquer banco quer. Torço contra, afinal, água e óleo não se misturam.

**Crítica produzida para o site do Grupo de Pesquisa de Análise em Telejornalismo, publicada em 19/03/2012. Acessar a publicação original em: http://telejornalismo.org/?p=1303

Bonner e Fátima comemoram vitória no Emmy na bancada do Jornal Nacional


No último dia 28 de setembro, o Jornal Nacional abriu espaço para que os apresentadores, William Bonner e Fátima Bernardes, comentassem a vitória do telejornal do Emmy Internacional, ocorrido dois dias antes, em Nova York. Uma coisa não se pode negar: foram momentos de muita emoção, pelo menos para os mediadores, que noticiaram o prêmio num tom de bate-papo comemorativo.

“Eu só fui entender quando fui tirar a foto como vitorioso depois. Eu me lembro dos gritos”, confessou Bonner, sob a atenção dos olhos orgulhosos da esposa-colega, ao relatar sua surpresa em receber o envelope da mão do presidente da Academy of Television Arts & SciencesJohn Shaffner. Durante os 4 minutos e 17 segundos que duraram a “notícia”, foram exibidas imagens da premiação, acompanhadas pelos comentários entusiasmados dos âncoras.

“É bom que todo mundo entenda: o Emmy é o Oscar da televisão e é um grande prêmio americano, quer dizer, os grandes “cobras” da televisão americana estão sempre sendo premiados pelo Emmy”, Bonner esclarece para os seus espectadores a importância do acontecido, e Fátima assina embaixo: “Ficou lindo o agradecimento, com todo mundo no palco. Embora a gente já tenha chegado a essa festa sete vezes, é muito impactante ver toda a presença dos grandes nomes do jornalismo americano nessa festa”.

Diante da febre do infotainment, das mudanças nos paradigmas jornalísticos e da desilusão quanto à objetividade, o que mais assusta não é o tom casual com que o casal-JN fala sobre o Emmy. Tendo em vista os valores jornalísticos, que apontam o interesse público como princípio legitimador da atividade profissional, e a credibilidade assumida pelo Jornal Nacional, que ocupa posição de principal telejornal brasileiro, a questão aqui é entender o critério de noticiabilidade            que justifica a transmissão demasiado alongada do triunfo do telejornal.

O fato de que o JN tem em sua linha editorial uma dinâmica de equilibrar notícias boas e notícias ruins é conhecido por todos, evidenciado tanto nas entrevistas concedidas pelos apresentadores, quanto nos materiais didáticos oriundos da experiência jornalística global, a exemplo documentário Um Dia no Jornal Nacional, que mostra a rotina diária de seleção, edição e apresentação dos principais acontecimentos no país e no mundo, ou no livro Jornal Nacional – Modo de Fazer, onde Bonner discorre sobre os segredos de fazer o melhor telejornalismo do país, num formato de manual voltado para estudantes de jornalismo. Sabemos, entretanto, que 4min17 representa quase 12% dos 35 minutos, que é a duração média das edições diárias do JN, e a pergunta que fica é: quantas informações importantes não foram dadas em detrimento da autopromoção.

Partindo do pressuposto de que os programas jornalísticos contemporâneos ainda buscam suas bases de legitimidade, nos moldes dos estudos do Jornalismo, trazemos aqui o critério de proximidade, proposto por Mauro Wolf, autor muito usado nos cursos de comunicação, para analisar a hierarquização das notícias do JN. Proximidade porque vamos falar de um caso que ocorreu aqui na Bahia, em agosto deste ano. Trata-se do acidente ocorrido na obra de uma grande construtora, onde nove operários morreram após a queda de um elevador mal-conservado. Nove famílias perderam seus pais por uma displicência comprovada por todos os órgãos de fiscalização urbana, e o Jornal Nacional sequer exibiu uma matéria produzida pela afiliada da rede Globo no estado, a rede Bahia. Quinze segundos de nota em um dos blocos do telejornal foi o suficiente para retratar a realidade de tal tragédia. O que nos faz observar uma sutil ironia na categoria em que o JN foi vencedor: notícia.

Basta rever a edição do dia 28 de setembro, para notar a discrepância entre a duração da notícia sobre o Emmy das demais matérias, mesmo aquelas das cidades do Sul-Sudeste, que são mais recorrentes no telejornal. A matéria sobre a prisão do comandante da Polícia Militar, acusado de matar uma juíza no Rio de Janeiro, por exemplo, teve 1min54. Na notícia sobre o jogo entre Brasil e Argentina, na Copa das Américas, o bate-papo entre William Bonner e Galvão Bueno durou 1min20, com direito a congratulações entre os colegas alusivas ao prêmio, sem contar com as notícias sobre a Bolsa, a Usina de Belo Monte, o arquivamento do caso do deputado Valdemar Costa Neto, o papel do Conselho Nacional de Justiça e o fim da greve de professores da rede estadual de Minas Gerais, que não tiveram nem um minuto de duração.

Diariamente, milhares de acontecimentos nordestinos, nortistas, sertanejos, ribeirinhos e periféricos gritam por um espaço na janela de maior visibilidade da televisão brasileira, enquanto os profissionais, celebridades ou não, tentam negociar tamanha demanda com os interesses empresariais, institucionais, políticos, geográficos e estratégicos da emissora.

**Crítica produzida para o site do Grupo de Pesquisa de Análise em Telejornalismo, publicada em 28/10/2011. Acessar a publicação original em: http://telejornalismo.org/?p=1272 

As velhas boas-vindas.

Eis que estou eu aqui, às 2h55 da manhã, inventando arte. Em pleno processo de monografia, num momento de dispersão [não tão distante do meu foco], resolvi criar este blog para compilar todas as considerações que venho fazendo, por meio das redes sociais, sobre programas televisivos. A partir de agora, vou publicá-las, diretamente, aqui.

Também publicarei as críticas que escrevo para o site do Grupo de Pesquisa de Análise em Telejornalismo, do qual sou pesquisadora (com muita honra), sob orientação da engajada e respeitada analista da televisão brasileira, Itania Gomes. Entretanto, é preciso deixar claro que este blog não tem ligações diretas com minha pesquisa no grupo, nem participação dos outros membros. Neste espaço, eu pretendo negociar as minhas experiências acadêmicas, que me levam a um caminho muito mais analítico acerca do funcionamento dos programas televisivos (analisando forma, conteúdo e capacidade comunicativa), com as minhas impressões como telespectadora, enquanto cidadã que deseja uma televisão aberta mais rica do que a disponível atualmente.

Quero compartilhar minhas opiniões com outras pessoas e conhecer a opinião alheia também, pois acredito no potencial comunicativo da televisão; creio ser uma poderosa arma em favor da democracia, se for discutida e questionada pelos sujeitos da sociedade. Enquanto isso não for feito por todos, cabe a nós, que dedicamos nosso tempo para isso, trocar informações. Porque enquanto uns fecham os olhos para ela e se calam, outros milhões de brasileiros continuam perpetuando os laços cotidianos com a telinha. Porque não acredito em manipulação. Todos somos sujeitos ativos, pensantes e independente do nível econômico ou escolar, estabelecemos formas próprias de negociação e resistência. Acredito em uma população 'desinstrumentalizada' [por conta do Estado, que não investe em educação] para lidar com um meio que surgiu, pelo menos no Brasil, como um lugar de atuação direta do capitalismo. Afinal, para quem não sabe, a TV já nasceu comercial no Brasil. Financiada por grandes empresas, seus produtos iniciais eram peças publicitárias e até as que não eram, possuíam ligações e referências visíveis com o anunciante. Basta lembrar do Repórter Esso.

E desde lá, nada mudou. O que não impediu a TV de, durante o seu desenvolvimento e experimentação, adquirir novos sentidos e, em sua época de brilhantina, ter lançado grandes nomes da cultura brasileira - da música, do teatro, da literatura - além de produzir muita coisa boa em termos de programas revolucionários e, incrivelmente, contra-hegemônicos. A diferença é que naquela época havia demanda na sociedade para aquilo, havia espaço e pessoas interessadas em fazer a televisão acontecer da melhor forma no país. Muitas pessoas bem-intencionadas! Idealistas no meio da loucura do mercado publicitário, rodando no bambolê para conseguir negociar os interesses do patrão com um bom conteúdo para a população. Estes estão cada vez mais raros, hoje em dia, fato. Mas e aí? As gerações se renovam e nós, comunicólogos ou não, é quem vamos criar essas novas demandas, essa nova mão-de-obra preocupada com questões sociais e culturais. Marx diz [falo no presente porque ele não vai morrer nunca] que o capitalismo contém, em si, suas próprias armadilhas; oferece os mecanismos para a sua própria supressão. E a Televisão é um bom exemplo destas armadilhas.

Se trabalharmos por uma TV de qualidade, fomentando o debate sobre ela na sociedade, teremos dado um primeiro passo para uma verdadeira transformação social - que deve se dar, antes de tudo, através da consciência coletiva - pois, gostem ou não, boa ou ruim, ela é o meio de comunicação com o maior poder de interpelação já verificado pelos investigadores da comunicação.


Bruna Rocha